Por Analice Ruas – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Quem cresceu jogando FIFA ou PES provavelmente se lembra de quando as franquias disputavam quem conseguia reproduzir melhor a sensação de assistir a uma partida de futebol. As câmeras imitavam as transmissões de televisão, os narradores tentavam reproduzir o clima das grandes emissoras e os estádios eram recriados nos mínimos detalhes. O objetivo era simples: fazer o jogador esquecer que estava diante de um videogame.
Mas a Copa do Mundo de 2026 mostra que essa relação mudou. Se antes os games tentavam copiar o futebol real, hoje as transmissões reais parecem incorporar elementos que durante anos fizeram parte apenas do universo dos consoles. A diferença entre assistir e jogar nunca foi tão pequena.
A própria rivalidade entre FIFA e PES ajuda a entender essa transformação. Embora fossem concorrentes diretos, os dois jogos tinham maneiras diferentes de apresentar uma partida. A FIFA, hoje EA Sports FC, apostava na experiência televisiva. Placares oficiais, gráficos avançados, replays cinematográficos e estatísticas surgindo na tela ajudavam a transformar cada jogo em um grande espetáculo.
Já o PES seguia outro caminho. Com câmeras mais abertas e uma visão mais ampla do campo, o foco estava na movimentação dos jogadores, na ocupação dos espaços e na leitura tática da partida. Enquanto um privilegiava a emoção da transmissão, o outro buscava destacar aspectos que muitas vezes passavam despercebidos para quem acompanhava o futebol pela televisão.
Curiosamente, a Copa de 2026 parece ter encontrado espaço para os dois modelos. As transmissões nunca exibiram tantas informações: posse de bola, velocidade dos atletas, distância percorrida e gráficos de desempenho passaram a ocupar um espaço importante na narrativa dos jogos. Um dos exemplos mais visíveis é o Match Momentum, recurso que mostra qual equipe está dominando determinados momentos da partida e transforma a pressão ofensiva e o volume de jogo em uma leitura visual acessível para o público.

Ao mesmo tempo, novas tecnologias aproximam o torcedor do que acontece dentro de campo. Uma das novidades mais comentadas é a Ref Cam, câmera instalada no árbitro que permite acompanhar alguns lances exatamente da perspectiva de quem toma as decisões durante a partida. O recurso busca oferecer uma experiência mais imersiva e ajudar o público a compreender a velocidade e a complexidade de determinadas jogadas.

A tecnologia também chegou à bola oficial do torneio, que conta com sensores internos capazes de registrar dados em tempo real e identificar o instante exato do contato com a chuteira dos jogadores. As informações auxiliam sistemas de arbitragem e contribuem para análises cada vez mais precisas sobre o que acontece durante uma partida. Tecnologias semelhantes já foram utilizadas em competições recentes e continuam sendo aprimoradas pela FIFA.

Nem mesmo a experiência dentro dos estádios ficou de fora dessa transformação. Telões de LED exibem revisões do VAR, estatísticas e informações que antes estavam restritas às transmissões televisivas, aproximando a experiência de quem está nas arquibancadas daquela vivida pelo público que acompanha os jogos de casa.

Nada disso significa que a Copa tenha se transformado em um videogame. Mas mostra como as formas de consumir futebol mudaram nas últimas décadas. O torcedor já não acompanha apenas o resultado de uma partida. Ele acompanha dados, gráficos, mapas de movimentação e diferentes perspectivas do mesmo lance em tempo real.
Durante anos, FIFA e PES tentaram imaginar como seria o futuro das transmissões esportivas. A Copa de 2026 mostra que parte desse futuro já chegou. E talvez a maior surpresa seja perceber que, em alguns momentos, o futebol real parece tão tecnológico quanto aquilo que milhões de pessoas conheceram primeiro através dos videogames.
