As revanches na história das Copas do Mundo

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Por João Silvino – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Próxima de completar o centenário, a Copa do Mundo conta com um verdadeiro oceano de grandes histórias em suas 22 edições disputadas e 96 anos de existência: jogadores de alto nível, elencos e esquadrões lendários, jogos inesquecíveis, títulos e derrotas marcantes. Dentro de toda história, sempre há alguns ingredientes a mais, responsáveis por torná-la ainda mais especial. Em determinadas campanhas, esse papel fica por conta das revanches por Copas anteriores.

Como esquecer dos sonoros 5 x 1 aplicados pela Holanda em cima da Espanha na Copa de 2014, após a final perdida em 2010? Podemos mencionar ainda a Inglaterra em 2002, eliminando a Argentina na fase de grupos depois de ter caído nos pênaltis contra os hermanos, em 1998. Pensando nisso, vamos relembrar, a partir de agora, algumas das vinganças ocorridas nas últimas Copas do Mundo, sejam elas imediatas, na edição seguinte, ou apenas simbólicas, ocorrendo anos depois.

FINAL 2022: Argentina 3 (4) x (2) 3 França

Duelo anterior: França 4 x 3 Argentina (Oitavas de final, 2018)

(Foto: Jewel Samad/AFP)

Argentina x França virou sinônimo de jogo inesquecível em Copas do Mundo. Além de acontecer em edições consecutivas, o duelo resultou em títulos para ambos os lados. Começando por 2018, quando uma embalada França, no talento de Mbappé, Griezmann e companhia, encarou a bagunçada Argentina, classificada ao mata-mata nos trancos e barrancos e na 2ª posição de seu grupo.

Naturalmente, os franceses eram favoritos e saíram na frente logo aos 13 minutos, em pênalti convertido por Griezmann. Até que, para surpresa geral, Di María empatou aos 41 e, no início da etapa final, Mercado virou a favor dos argentinos. Mas a partir do golaço espetacular de Pavard, aos 12 do 2º tempo, a Argentina desmoronou e levou mais dois gols de Mbappé em menos de dez minutos, vendo um possível triunfo se transformar em derrota por 4 x 2. Nos acréscimos, Aguero chegou a descontar para 4 x 3, mas não evitou a vitória dos franceses, que seriam campeões mundiais diante da Croácia na final.

Na edição seguinte, em 2022, vimos a maior e melhor final da história das Copas do Mundo, e quiçá de todo o futebol desde que foi inventado. Messi abriu o placar aos 23 minutos e Di María ampliou aos 35 da etapa inicial, deixando a Argentina em vantagem por quase todo o jogo. Parecia apenas uma questão de tempo para que o grito de campeão mundial saísse da garganta dos hermanos, até surgir Kylian Mbappé, com dois gols praticamente seguidos, aos 33 e 35 do 2º tempo.

Na prorrogação, Messi recolocou a Argentina em vantagem na 2ª etapa, em um gol que costuma ser fatal em 99,9% dos casos. Mas não foi para Mbappé, que encontrou um pênalti a três minutos do apito final e empatou outra vez, anotando um histórico hat-trick em uma decisão de Copa. No último lance, Kolo Muani saiu na cara do gol e teve em seus pés o título da França, em uma virada histórica, mas parou no goleiro Martinez. E nos pênaltis, Coman e Tchouaméni perderam suas cobranças, consagrando o título e a revanche da Argentina.

Semifinal 2022: Argentina 3 x 0 Croácia

Duelo anterior: Croácia 3 x 0 Argentina (fase de grupos, 2018)

(Foto: Carl Recine/Reuters)

Podia ter sido o Brasil, no maior clássico da história diante da Argentina, mas faltaram míseros 4 minutos para isso, e quem chegou na semifinal foi a Croácia. Um reencontro contra os argentinos depois do estarrecedor duelo pela Copa de 2018.

A mesma Argentina que seria eliminada pela França e, dias antes, não havia passado de um empate contra a novata Islândia. Pela frente, uma Croácia de grandes jogadores em todas as posições, mas subestimada diante da tão falada geração belga, e que parecia apenas uma figurante de luxo no Mundial; até provar o contrário naquele 21 de junho de 2018.

Depois de um 0 x 0 na etapa inicial, uma falha bisonha do goleiro Caballero entregou um gol para Rebic aos 7 do 2º tempo. Os argentinos tentaram reagir, mas viram Modric ampliar em um golaço de fora da área aos 29, e Rakitic fechar a conta nos acréscimos, anotando sonoros 3 x 0 no placar.

Na sequência da Copa da Rússia, a Croácia foi caminhando com um mantra de se classificar a qualquer custo, não importava se fosse preciso superar três prorrogações seguidas. Desta vez, o mesmo cansaço que custou um título mundial em 2018, foi o vilão que impediu outra decisão no Qatar. Após derrotarem Japão e Brasil nos pênaltis, os croatas até iniciaram bem na semifinal diante dos argentinos, mas o pênalti convertido por Messi aos 31 minutos somado ao cansaço fez a equipe desabar: Álvarez ampliou aos 39, e na etapa final, após receber passe de Messi, que entortou a marcação do zagueiro Gvardiol, marcou mais um para selar a vaga argentina na decisão.

Os mesmos 3 x 0 de 2018 no placar, sabor de vingança e vaga na final. Festa argentina, e alívio para alguns brasileiros, que agradecem pelo Brasil ter escapado de uma possível derrota humilhante para os hermanos. Será?

Quartas de final 2022: Croácia 1 (4) x (2) 1 Brasil

Duelos anteriores: Brasil 3 x 1 Croácia (Fase de grupos, 2014), Brasil 1 x 0 Croácia (Fase de grupos, 2006)

(Foto: Ina Fassbender/AFP)

Os famigerados quatro minutos, que ainda machucam o torcedor brasileiro, e, de quebra, viraram uma vingança dos croatas para cima do Brasil, por derrotas em Copas e até por um erro de arbitragem nesse pacote.

Depois de conseguir a independência da Iugoslávia nos anos 90, a Croácia estreou em Copas do Mundo rapidamente, se classificando para o Mundial da França em 1998 e logo chegando na semifinal. Em 2006, a Croácia foi para sua terceira participação seguida e caiu no grupo do Brasil, estreando contra a seleção de Carlos Alberto Parreira e do quadrado mágico. No gramado do Olympiastadion, em Berlim, os croatas deram trabalho para um Brasil nada inspirado, mas sucumbiram no fim do 1º tempo diante da estrela de Kaká, autor do gol que definiu a vitória da canarinho por 1 x 0.

Oito anos depois, a Croácia retornava à Copa do Mundo no Brasil, após ficar fora do Mundial da África do Sul. E, além de estrear novamente contra a Seleção Brasileira, os croatas foram protagonistas do jogo de abertura em São Paulo, saindo na frente com um bisonho gol contra de Marcelo aos 11 minutos. Neymar empatou pouco depois, mas a Croácia dava trabalho e poderia muito bem estragar a festa brasileira, até que o árbitro Yuichi Nishimura marcou um pênalti inexistente de Lovren em cima de Fred. Pletikosa quase defendeu, mas Neymar anotou mais um no jogo para virar, e Oscar fechou a conta nos últimos minutos. Uma derrota com a mão da arbitragem, que fez a diferença no grupo.

Com esse histórico, Brasil e Croácia voltaram a se encontrar no estádio Cidade da Educação, em 9 de dezembro de 2022, pelas quartas de final da Copa do Qatar. Foram 105 minutos de intensa pressão brasileira e grandes defesas de Livakovic, até a pintura de Neymar derrubar a muralha do goleiro croata, em um lance que parecia garantir os brasileiros na semifinal. Mas a equipe comandada por Tite resolveu continuar no ataque sem necessidade, e abriu caminho para que Petkovic empatasse a 4 minutos do apito final da prorrogação. Nos pênaltis, os erros de Rodrygo e Marquinhos selaram mais uma eliminação brasileira em Copas, uma das mais traumáticas desde a tragédia do Sarriá.

Quartas de final 2022: Marrocos 1 x 0 Portugal

Duelo anterior: Portugal 1 x 0 Marrocos (Fase de grupos, 2018)

(Foto: Alberto Pizzoli/AFP)

Aqui, estamos diante de um caso mais simbólico de vingança, por envolver fases diferentes e, principalmente, um certo abismo entre a importância de cada confronto. Em 2018, o sorteio da Copa colocou Marrocos e Portugal juntos no grupo B, com os marroquinos retornando ao Mundial após 20 anos e os lusitanos entrando na competição para voltar a se destacar, depois de campanhas fracas em 2010 e 2014.

Dentro de campo, Cristiano Ronaldo manteve o embalo e marcou seu 4º gol no Mundial logo no início. Porém, Marrocos foi o dono da partida e criou diversas oportunidades de gol, merecendo muito mais a vitória nos 90 minutos em Moscou. Como o futebol nem sempre é justo e exato, o placar ficou em 1 x 0 a favor de Portugal, o que eliminou os marroquinos com uma rodada de antecedência.

Quatro anos depois, o estádio Al Thumama abrigou o reencontro entre as duas seleções, agora pelas quartas de final e com dois ingredientes históricos: Marrocos carregando a chance de levar a África para uma semifinal inédita de Copa, e Portugal podendo igualar as históricas campanhas de 1966 e 2006. Na revanche, coube a En-Nesyri completar o cruzamento de Attiat-Allah aos 41 do 1º tempo, testando firme de cabeça para o fundo da rede. Os portugueses tiveram mais posse de bola, mas não souberam convertê-la em chances claras de gol, se despedindo da Copa e levando Cristiano Ronaldo – o algoz marroquino em 2018 – aos prantos na saída para o vestiário.

Quartas de final 2018: Bélgica 2 x 1 Brasil

Duelo anterior: Brasil 2 x 0 Bélgica (Quartas de final, 2002)

(Foto: John Sibley/Reuters)

Talvez o sucesso incontestável da Seleção Brasileira no passado possa explicar porque tantas seleções andaram se vingando recentemente. Motivos à parte, em 2018, foi a vez da Bélgica dar o troco, em uma história que pode ser definida com um simples ditado: “o feitiço se virou contra o feiticeiro”. 

Era 17 de junho de 2002, manhã de segunda-feira, quando Brasil e Bélgica estiveram frente a frente nas oitavas de final da Copa do Mundo, em Kobe, no Japão. No placar final, 2 x 0 para a Seleção Brasileira em gols de Rivaldo e Ronaldo Fenômeno na 2ª etapa, mas o final dessa história poderia ter sido bem diferente: aos 35 do 1º tempo, depois de cruzamento vindo da direita, o meio-campista Marc Wilmots ganhou de Roque Júnior pelo alto e testou firme pro fundo da rede. Seria o primeiro gol belga, não fosse pela intervenção do árbitro jamaicano Peter Prendergast, que anulou o lance por uma falta inexistente em cima do zagueiro do Brasil. Melhor para a canarinho naquele momento, dando sequência na campanha do penta.

16 anos se passaram, até chegar 6 de julho de 2018 e o reencontro de Brasil e Bélgica, agora nas quartas de final da Copa do Mundo. Na arena de Kazan, a tão falada geração belga fez seu nome e sobrou no 1º tempo, contando com o gol contra de Fernandinho para abrir o placar. De Bruyne ampliou em um golaço, e o 2 x 0 no intervalo ficou barato diante de uma abalada Seleção Brasileira.

Na etapa final, alterações de Tite mudaram o jogo, o Brasil melhorou e Renato Augusto chegou a diminuir o placar em um lindo gol de cabeça. Porém, ele mesmo perdeu uma chance ainda mais clara de empatar logo depois, e a seleção mais uma vez se despediu da Copa nas quartas de final.

Lembram daquele ditado mencionado no início? Assim como a Bélgica reclamou do gol anulado de Wilmots em 2002, o Brasil reclamou de um pênalti não marcado – e até claro – de Kompany em Gabriel Jesus no início do 2º tempo. Se os brasileiros foram prejudicados, a vingança belga veio acompanhada de um reembolso.

Semifinais 2014: Alemanha 7 x 1 Brasil

Duelo anterior: Brasil 2 x 0 Alemanha (Final, 2002)

(Foto: Getty Images)

Foram vários os cenários que poderiam ter evitado essa triste vingança. “Se a Argélia tivesse vencido a prorrogação”, “se o chute de Pinilla tivesse entrado”, “se o Neymar não levasse a joelhada”. O “se” está tão presente que pode até ser escolhido.

Era 2002, quando Oliver Kahn foi protagonista de uma das maiores falhas em finais de Copa do Mundo, e Ronaldo Fenômeno – ainda sob a alcunha de Ronaldinho – nos garantiu o penta em dois gols. Foi apenas o primeiro duelo entre Brasil e Alemanha em Mundiais, e bem que podia ter sido o único, evitando a maior tragédia do futebol e do esporte brasileiro.

12 anos se passaram desde então. No meio desse caminho, até chegar o fatídico 8 de julho de 2014, o Brasil superou os alemães em uma Copa das Confederações, e o futebol foi injusto quando impediu que os dois voltassem a decidir o Mundial em 2010, mesmo que as duas equipes apresentassem, talvez, o melhor desempenho em campo na Copa na África do Sul.

Mas naquela tarde, em pleno Mineirão, com uma final de Copa em casa parecendo tão próxima, o psicológico frágil da Seleção Brasileira havia ido embora de vez com a lesão de Neymar ocorrendo da maneira mais traumática possível. A expectativa por uma nova decisão se transformou em “virou passeio”, “lá vem eles de novo” e acabou em um estarrecedor 7 x 1. Que por centímetros, no fim do 2º tempo, não foi 8 x 0. E por pena da Alemanha no intervalo, não chegou a dois dígitos. 

Semifinais 2014: Argentina 0 (4) x (2) 0 Holanda

Duelo anterior: Holanda 2 x 1 Argentina (Quartas de final, 1998)

(Foto: Reuters)

É bem verdade que a Croácia impediu o maior Brasil x Argentina de todos os tempos em 2022, mas ela não foi a primeira “estraga-prazeres”. 24 anos antes, na Copa de 1998, Holanda e Argentina se cruzaram nas quartas de final, e o vencedor do duelo iria enfrentar o Brasil de Zagallo, que havia eliminado a Dinamarca em um jogo épico.

No Stade Vélodrome, em Marselha, Patrick Kluivert abriu os trabalhos para a laranja mecânica aos 12 minutos do 1º tempo, mas pouco depois, Claudio López igualou a favor da Argentina. O jogo seguiu intenso e disputado, com direito a duas expulsões na etapa final, de Numan pelo lado holândes e Ortega do lado argentino. A prorrogação e o drama do gol de ouro pareciam certas, até que aos 45 do 2º tempo, Dennis Bergkamp marcou um gol antológico e classificou os holandeses, em vitória por 2 x 1. Mais do que um momento lendário e inesquecível, o jogo acabou servindo como um troco simbólico para a Holanda, 20 anos depois de perder a final da Copa para os argentinos.

16 anos correram no tempo, e nesse meio de caminho, Argentina e Holanda chegaram a se reencontrar em 2006. Porém, o jogo válido pela última rodada da fase de grupos acabou virando uma partida de comadres, já que as duas seleções estavam classificadas com antecedência; e por coincidência (ou não), empataram em 0 x 0.

Na Copa de 2014, o cenário foi totalmente diferente. Argentina e Holanda se cruzaram na semifinal, disputada na Arena Corinthians. Um dia depois do fatídico 7 x 1, o duelo definiu quem enfrentaria a Alemanha no Maracanã, e quem sobraria para a disputa do 3º lugar contra um Brasil em frangalhos.

Em um jogo amarrado por boa parte dos 120 minutos, ninguém balançou a rede e o placar ficou no 0 x 0, com poucas chances claras e bem concluídas na direção do gol. A Holanda, que havia eliminado a Costa Rica nos pênaltis trocando seu goleiro no fim da prorrogação, dessa vez resolveu confiar no titular Cillessen. E se deu mal, com Sergio Romero defendendo as cobranças de Vlaar e Sneijder. Argentina classificada, e vingando a derrota de 1998. Felizmente, faltou o título para os hermanos no Maracanã, o que seria uma completa tragédia para o Brasil.

Fase de grupos 2014: Holanda 5 x 1 Espanha

Duelo anterior: Espanha 1 x 0 Holanda (Final, 2010)

(Foto: Christophe Ena/AP)

Não havia como remediar a derrota de quatro anos atrás, a não ser que o duelo voltasse a se repetir em uma decisão de Copa. Porém, não há torcedor holandês que não tenha sentido a alma lavada após o apito final do italiano Nicola Rizzoli na Arena Fonte Nova.

Com a natural tensão que marca toda final de Copa do Mundo, Holanda e Espanha foram ao gramado do Soccer City, em Joanesburgo, com o mesmo sonho de se tornarem a oitava seleção campeã mundial. Em um jogo truncado, mais de dez cartões amarelos foram aplicados, um deles generoso para De Jong, após acertar uma voadora em Xabi Alonso. Na prorrogação, o zagueiro Heitinga acabou expulso no início do 2º tempo, o que pode ter feito a diferença negativamente: sete minutos depois do vermelho, Iniesta saiu na cara do goleiro Stekelenburg e abriu o placar da decisão. Para os holandeses, ficou o trauma de mais um vice, e o fantasma do gol perdido por Robben ainda no tempo regulamentar.

Em 2014, quis o sorteio da Copa que os finalistas se reencontrassem logo na fase de grupos, e mais do que isso: no jogo de abertura da chave. Era a Espanha que, apesar do acachapante 3 x 0 sofrido diante do Brasil na final da Copa das Confederações, ainda colocava medo nos adversários, vindo de um bicampeonato da Eurocopa.

Quem vê apenas o placar final, sem se aprofundar, não imagina que a Espanha foi a autora do primeiro gol, em pênalti convertido por Xabi Alonso aos 27 do 1º tempo. Tudo indicava que a Fúria levaria a vantagem para o intervalo, até Blind encontrar lançamento fantástico para Van Persie, que marcou um gol antológico de cabeça aos 43 minutos. Daí pra frente, a Holanda passou a dar aula em campo, atropelando a Espanha sem piedade no 2º tempo e construindo uma histórica goleada de 5 x 1. Nunca uma campeã mundial havia estreado com uma derrota tão humilhante na Copa seguinte. E para a Holanda, ficou um leve gostinho de vingança pelo trauma de 2010, especialmente por contribuir na eliminação precoce dos espanhóis ainda na fase de grupos.

Quartas de final 2010: Holanda 2 x 1 Brasil

Duelo anterior: Brasil 1 (4) x (2) 1 Holanda (Semifinais, 1998)

(Foto: Michael Sohn – 2.jul.2010/Associated Press) 

Prometemos que será o último trauma brasileiro a ser relembrado nesta matéria. 

O duelo entre Brasil e Holanda, na semifinal da Copa de 1998, é frequentemente mencionado como um dos maiores jogos da história do Mundial, reunindo uma legião de craques: no Brasil, remanescentes do tetra como Taffarel, Bebeto e Dunga, e novos destaques como Ronaldo Fenômeno e Rivaldo. No lado holandês, uma geração estrelada de ponta a ponta, com Van der Sar, Seedorf, Patrick Kluivert, Bergkamp, Cocu, Overmars e os irmãos De Boer.

Para os holandeses, era a chance de se vingar por 1994, quando o Brasil levou a melhor em um agitado 3 x 2, decidido no gol antológico de Branco em cobrança de falta. Porém, quem saiu brilhando foi a Seleção Brasileira no início do 2º tempo, com o quarto gol de Ronaldo naquela Copa. Tudo indicava uma vitória dos brasileiros ainda no tempo normal, mas a Holanda foi buscar nos finalmentes do jogo, com Patrick Kluivert empatando em lindo cabeceio, após cruzamento de Ronald De Boer. Na prorrogação, nada de gols, e nos pênaltis, a estrela ficou por conta de Taffarel, defendendo as cobranças de Cocu e Ronald de Boer. Uma noite que ficou ainda mais especial graças a icônica narração de Galvão Bueno.

Nos 12 anos que se passaram até o reencontro, o Brasil chegou ao penta em 2002 e decepcionou em 2006. A Holanda, por sua vez, deu vexame e sequer disputou a Copa de 2002, enquanto em 2006, parou já nas oitavas de final e protagonizou a “Batalha de Nuremberg” contra Portugal.

Para a Copa de 2010, a laranja mecânica contava com o espetacular trio Robben, Van Persie e Sneijder, que merecia a bola de ouro naquela temporada. Contra o Brasil, foi a primeira das finais antecipadas que a Copa reservou, as duas mereciam o título pelo que jogaram nos gramados sul-africanos. E como bem lembrado, a Seleção Brasileira largou na frente em gol de Robinho, completando um lançamento espetacular de Felipe Melo aos 10 minutos. Os brasileiros foram para o intervalo na frente e tinham tudo para dar certo, até a falha de Júlio César aos 7 do 2º tempo, e o espaço cedido para Sneijder marcar de novo aos 23. A expulsão infantil de Felipe Melo foi a cereja da eliminação brasileira, e os holandeses conseguiram dar o seu troco em dose dupla.

FINAL 2006: Itália 1 (5) x (3) França

Duelo anterior: França 0 (4) x (3) 0 Itália (Quartas de final, 1998)

Menção honrosa: França 2 x 1 Itália (Final da Eurocopa 2000)

(Foto: Celso Júnior/Estadão)

Qualquer vingança se torna mais especial quando ocorre em uma final de competição, e no caso de Itália x França, ainda foi complementada por outros ingredientes e fatores, fazendo jus a um confronto entre dois colossos do futebol.

Em 1998, a Itália tentava apagar o fantasma do vice-campeonato para o Brasil quatro anos antes, e contava com um grande time para isso. Passando sem sustos pela primeira fase e pela Noruega nas oitavas, a Azzurra se encontrou com os donos da casa nas quartas de final, horas antes do mítico Brasil x Dinamarca. E para aumentar a expectativa, o jogo ocorreu no Stade de France, o principal palco da Copa. Foram 120 minutos e o placar não saiu do zero e a decisão foi para os pênaltis, colocando os italianos diante dos traumas de 1990 e 1994. Dessa vez, Roberto Baggio não isolou sua cobrança e converteu, mas Albertini e Di Biagio perderam, impondo a Itália sua terceira eliminação consecutiva nos pênaltis em Copas do Mundo.

Como se isso não fosse suficiente, os italianos foram derrotados em mais um jogo decisivo para a França no ano 2000, pela final da Eurocopa, e com requintes de crueldade: Delvecchio abriu o placar aos 10 minutos do 2º tempo, e a Azzurra vencia até o último minuto, quando Wiltord empatou. Na prorrogação, Trezeguet fez valer o gol de ouro e selou mais um triunfo francês.

Chegamos então a 2006. Itália e França na grande final da Copa do Mundo, em um duelo marcado pela despedida do lendário Zinedine Zidane. E o craque francês precisou de apenas sete minutos para roubar as atenções, abrindo o placar ao converter um pênalti de cavadinha, em cima do goleiro Buffon. Mas a vantagem durou pouco: aos 18 minutos, Pirlo cobrou escanteio na medida e Materazzi conferiu de cabeça, empatando a final. O que ninguém poderia imaginar é que os artilheiros da decisão voltariam a ser protagonistas naquele mesmo jogo, mas não pelo futebol incontestável de ambos.

Aos três minutos do 2º tempo da prorrogação, Zidane deu uma cabeçada no peito de Materazzi, e acabou expulso, o que faria enorme diferença. O placar não saiu do empate, e a decisão da Copa foi para os pênaltis, fazendo a Itália reviver os três fracassos dos anos 90. Mas dessa vez, o final foi diferente e feliz, com todos os cinco pênaltis convertidos definindo o tetra para a Azzurra. E em uma dessas incríveis coincidências do futebol, o mesmo Trezeguet que decidiu a Eurocopa de 2000, foi o vilão francês perdendo sua cobrança.

Fase de grupos 2002: Inglaterra 1 x 0 Argentina

Duelo anterior: Argentina 2 (4) x (3) 2 Inglaterra (Oitavas de final, 1998)

(Foto: Getty Images)

A última vingança fica por conta de uma das grandes rivalidades do futebol, agravada pela Guerra das Malvinas. Argentina e Inglaterra voltaram a se encontrar em uma Copa do Mundo em 1998, 12 anos depois do histórico jogo decidido por Diego Maradona – e por sinal, era o primeiro Mundial dos argentinos sem o seu maior craque. Os ingleses, por outro lado, estavam retornando às Copas após o vexame de não se classificar em 1994.

O duelo foi válido pelas oitavas de final, e logo aos 5 minutos, Gabriel Batistuta abriu o placar em cobrança de pênalti. Logo na sequência, a Inglaterra reagiu como um relâmpago e virou o placar em um espaço de sete minutos, com gols de Shearer (9´) e Michael Owen (16´). No final da primeira etapa, Javier Zanetti igualou novamente o placar em 2 x 2, e na volta do intervalo, a malandragem argentina foi autora de uma das grandes imagens da história das Copas: Diego Simeone fez falta dura em Beckham, e o astro inglês caiu na pilha, revidando a infração e levando cartão vermelho. O 2 x 2 persistiu até o fim, e nos pênaltis, a Inglaterra sucumbiu novamente contra os hermanos, após Ince e Batty perderem suas cobranças. 4 x 3 e Argentina classificada.

Quatro anos depois, o reencontro dos eternos rivais veio na fase de grupos, compondo o grupo da morte daquele Mundial, com Suécia e Nigéria. O duelo ocorreu pela 2ª rodada em Sapporo, com a Argentina chegando na ponta da chave após vencer os nigerianos, enquanto ingleses e suecos haviam empatado. Para fins de curiosidade, a revanche foi apitada pelo italiano Pierluigi Collina.

Em mais uma dessas ironias no futebol, a marca da cal que eliminou a Inglaterra foi a mesma que marcou a vingança em 2002: Owen foi derrubado na área, e a cobrança ficou por conta de David Beckham, um dos vilões na França. O astro converteu e fez o único gol do jogo, selando uma vitória fundamental para os Three Lions e contribuindo diretamente para a eliminação precoce dos argentinos na última rodada.

Chegando em 3º na despedida da fase de grupos, a Argentina precisava vencer a Suécia, mas não passou de um empate chorado aos 43 do 2º tempo, em gol de Hernán Crespo. A Inglaterra também ficou na igualdade com a Nigéria, e classificada, ainda viu ser concretizada a sua vingança por duas Copas passadas.

Na Copa de 2026, o chaveamento repleto de possibilidades ainda não permite que novas vinganças sejam projetadas nesta edição. A certeza é que o triunfo da Argentina na final de 2022 não foi a última, e elas voltarão a acontecer. Afinal, as revanches são apenas uma das razões pela qual a Copa do Mundo é tão maravilhosa.



Por Midia Ninja

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