Por Hyader Epaminondas
Com uma pré-estreia cercada pelo frio e pela neblina de uma noite paulistana na área externa da Cinemateca Brasileira, “Natal Amargo” parecia encontrar, do lado de fora, o contraste perfeito para o melodrama ardente que Pedro Almodóvar escreve em tempo real na tela. Porque, mais uma vez, o diretor transforma o próprio cinema em uma espécie de autobiografia emocional disfarçada de ficção.
Seus filmes sempre carregaram a sensação de fragmentos íntimos reorganizados em forma de fábula, como se cada personagem existisse para externalizar medos, desejos reprimidos, crises criativas e feridas emocionais acumuladas ao longo de sua trajetória artística. Existe algo profundamente confessional na forma como ele captura pessoas tentando sobreviver aos próprios cotidianos, presas a situações comuns, extremamente comuns, mesmo quando tudo ao redor parece artificialmente colorido, teatral, controlado e excessivo.
Almodóvar entende que o exagero nunca anula a verdade emocional, pelo contrário. Seus enquadramentos carregados de vermelhos e azuis, suas casas visualmente vibrantes, seus corpos excessivamente passionais e seus diálogos quase operísticos estão sempre em suas mãos, onde sentimentos pequenos demais para permanecerem escondidos acabam transbordando pela mise-en-scène inteira.
“Natal Amargo” reforça essa ideia de que Almodóvar filma como alguém constantemente assombrado pela própria memória. Seus personagens parecem viver presos entre passado e imaginação, entre culpa e fantasia, como se todos carregassem versões inacabadas de si mesmos habitando o mesmo espaço. O paralelo entre mestre e criatura surge naturalmente, como dois espelhos deformados que, ao tentarem compreender um ao outro, acabam revelando partes ocultas de si mesmos. Existe uma sensação muito forte de repetição emocional no filme, quase como se seus personagens estivessem condenados a revisitar as mesmas dores até transformá-las em alguma forma de arte, afeto ou autodestruição, refletindo com maestria na cor saturada e na composição que vibra vitalidade.
A crônica do cotidiano é liderada, dessa vez, por Raúl, vivido por Leonardo Sbaraglia, e Elsa, interpretada por Bárbara Lennie, que funcionam como perspectivas em constante justaposição, quase como duas versões incompatíveis da mesma memória tentando ocupar o mesmo espaço dentro do filme. Sbaraglia carrega o diretor com a melancolia de alguém que transforma a própria vida em ficção para conseguir suportá-la e fugir da sua realidade, enquanto Lennie mostra uma Elsa com intensidade, tentando sublimar sua dor do luto em arte.
O mais interessante é perceber que Almodóvar permanece escondido entre os dois, manipulando seus conflitos como um protagonista invisível, porém completamente visível, como se se escondesse por trás de uma fina cortina de cetim que projeta partes fragmentadas de si mesmo em cada diálogo, silêncio e explosão emocional, existindo como extensões de um diretor revisitando os próprios eus sem nunca precisar aparecer diretamente em cena.

Almodóvar, safra rara de paixões fermentadas como um vinho de notas impossíveis
Em muitos diretores, essa estilização intensa criaria distanciamento, mas aqui acontece o oposto: quanto mais artificial parece o universo visual, mais íntimos os sentimentos se tornam. As cores vibrantes escondem personagens profundamente solitários, e o humor surge como mecanismo de sobrevivência, às vezes ácido como vinagre, outras vezes acolhedor como um bom vinho amadurecido pelo tempo, carregando a acidez das decepções sem perder a doçura das memórias, enquanto o desejo surge como tentativa desesperada de preencher ausências emocionais que nunca desaparecem completamente.
É extremamente metalinguístico. Almodóvar parece filmar artistas, amantes e pessoas emocionalmente destruídas como extensões fragmentadas dele próprio, enquanto acompanhamos um roteirista escrevendo sobre um roteirista escrevendo sobre um roteirista. Aqui ele abre parênteses, colchetes e chaves emocionais dentro da própria narrativa, criando personagens que falam de si mesmo sem necessariamente representá-lo literalmente. Seu cinema funciona como uma longa sessão de terapia estética onde memória, desejo, culpa e criação artística acabam se misturando até se tornarem inseparáveis em uma espécie de sublimação psicodélica.
E talvez seja justamente por isso que o filme passe tão rápido, apesar das quase duas horas de duração. Quando os créditos começam a subir, ainda existe a sensação de que o diretor guardou mais uma cena, mais uma revelação emocional antes da tela finalmente escurecer por completo. E então você sai da sessão carregando tudo aquilo que o filme parece esconder mesmo depois de terminar.
É uma sensação constante de movimento emocional, como se Almodóvar estivesse sempre aprofundando uma nova camada psicológica dos personagens ou revisitando uma ferida de si mesmo sob outro ângulo. O desfecho não parece simplesmente concluir a narrativa, mas expandi-la emocionalmente, como se o diretor encontrasse novas formas de reinterpretar sua própria melancolia até os minutos finais. É uma viagem egóica, mas uma doce viagem que a gente fica torcendo para nunca acabar.
Almodóvar parece caminhar pelos próprios corredores emocionais revisitando metáforas já conhecidas de cor. O filme funciona como um primeiro rascunho esboçado. Existe a sensação de um diretor olhando para trás e reconhecendo que passou décadas transformando a si mesmo em ficção. Cada cena parece abrir uma gaveta antiga cheia de fantasmas que já habitaram outros filmes seus. Mas o mais interessante é perceber que, aos poucos, Almodóvar começa a se afastar desse reflexo.
Como um pintor que interrompe um autorretrato no meio da tela ao perceber que já não deseja mais continuar olhando para si mesmo. Inevitavelmente, Almodóvar parece abandonar esse grande labirinto autobiográfico para tentar tocar algo menos narcísico e mais universal. Como alguém que fecha lentamente um diário antigo depois de perceber que, pela primeira vez, deseja olhar pela janela em vez de continuar escrevendo sobre si mesmo.
“Natal Amargo”, assim como seus filmes anteriores, não existe para oferecer respostas ou curas definitivas. Eles existem para transformar dor em imagem, memória em performance e sentimento em cor em uma sublimação de ficção. Como se filmar fosse a única maneira possível de continuar convivendo com os próprios fantasmas.
