Por Hyader Epaminondas
Já pensou em um blaxploitation dirigido por um russo? Kirill Sokolov transforma “Eles Vão Te Matar” em uma espiral frenética de sobrevivência social, humor ácido e gore cartunesco, onde a violência abandona o peso da realidade para virar puro espetáculo de ação, desses que parecem feitos para explodir em uma TV de tubo no fundo da locadora.
Existe algo profundamente artificial no filme, e é justamente isso que faz tudo funcionar tão bem. Sabe aquela estética de filmes dos anos 2000, onde o CGI ainda parecia estar aprendendo a existir? Tudo era saturado demais, plástico demais, falso demais. Aqui, esse efeito retorna não como limitação tecnológica, mas como linguagem. A falta de orçamento vira textura visual, enquanto cada corredor do hotel Virgil pulsa como um pesadelo surreal iluminado por cores quentes demais para parecerem reais.
É como se Wes Anderson tivesse sido trancado num quarto assistindo filmes de blaxploitation e lendo quadrinhos de Frank Miller até perder completamente a noção entre realidade e fantasia. Só que, no meio desse delírio, o rigor estético permanece intacto, com enquadramentos perfeitamente simétricos, cores calculadas ao milímetro, personagens que falam como se estivessem presos dentro de uma peça teatral e uma mise-en-scène tão controlada que cada objeto parece colocado ali com pinça.
A diferença é que, no lugar da melancolia elegante habitual de Wes Anderson, entra uma energia caótica, violenta e exageradamente cool, como se aquele universo de casinhas de boneca tivesse sido invadido por tiros, sangue e paranoia urbana. Tudo aqui existe no exagero: os enquadramentos abertos demais, os objetos posicionados artificialmente em primeiro plano antes da violência explodir ao fundo, os cortes rápidos que parecem mais interessados na pose do que na consequência, com uma câmera que não observa, performa.
O simbolismo mais forte do filme: ninguém naquele hotel vive de verdade. Todos encenam poder. O Virgil, ocupado por ricos excêntricos que parecem saídos de um pesadelo decorado por arquitetos milionários em crise existencial, funciona menos como um hotel e mais como um organismo vivo alimentado pela ganância das elites. Os corredores parecem engolir lentamente a protagonista, como se o prédio inteiro rejeitasse sua presença do mesmo jeito que corpos ricos rejeitam aquilo que ameaça romper a fantasia de poder que construíram ao redor de si. O surrealismo visual acompanha a sensação constante de deslocamento social da personagem de Zazie Beetz.
Asia Reaves, de Beetz, anda por ambientes que claramente nunca foram feitos para alguém como ela existir ali. Por isso o movimento da câmera importa tanto. Ela não passeia pelo set. Ela desfila. Cada avanço da protagonista carrega a insolência elegante de quem sobreviveu a um mundo arquitetado para esmagá-la. O corpo vira resistência e, junto da coreografia, vira manifesto político. Até nas cenas de ação mais absurdamente estilizadas existe uma ideia muito clara de luta de classes acontecendo através do impacto.
O filme bebe diretamente da linguagem do blaxploitation, principalmente na forma como transforma presença em poder. A heroína entra em cena como um trovão vestido de pijama: olhar afiado, silêncio calculado, violência guardada no ritmo do caminhar. Não pede licença. Toma espaço. E então vem a trilha sonora, que percorre as veias do filme como sangue quente. Cada batida parece anunciar sobrevivência, desejo e revolta. Como se o próprio som dissesse que existir já é um ato político.
O gore de “Eles Vão Te Matar” funciona como uma continuação natural da direção de arte. Nada ali busca realismo, busca impacto visual, com sangue explodindo como tinta jogada numa tela, corpos atravessando os cenários como se fossem parte da própria composição exageradamente colorida do hotel. Existe algo profundamente macabro em várias mortes, mas o filme entende que horror também é um espetáculo que merece ser assistido em alta definição, sempre iluminando os ambientes no momento em que a protagonista passa para deixar tudo bem nítido.
E é justamente esse exagero cartunesco que impede a violência de se tornar vazia ou simplesmente cruel. O filme transforma mutilações, ossos quebrando, cabeças explodindo e efeitos práticos grotescos em sua própria linguagem. Tem momentos em que a ação parece saída diretamente de um quadrinho ultraviolento de Frank Miller ou de um frame congelado de anime dos anos 90, onde a violência passa a obedecer à emoção e ao melhor momento congelado em cena.
O mais curioso é como o macabro nunca destrói o senso de diversão, pelo contrário, ele alimenta. Existe uma criatividade infantil na maneira como cada cena tenta inventar uma nova forma absurda de violência. O filme parece genuinamente empolgado com seus próprios excessos, como uma criança espalhando bonequinhos pelo quarto inteiro, cobrindo tudo de ketchup fingindo ser sangue, derrubando castelos de brinquedo no chão e inventando novas maneiras absurdas de destruir o próprio cenário só para ter a desculpa de montar outro ainda maior, mais colorido e mais caótico logo em seguida. O filme funciona exatamente nesse estado de imaginação sem freio, tentando descobrir até onde consegue esticar o grotesco antes dele virar pura euforia estética.
E isso conversa diretamente com a artificialidade proposital do longa. O filme quer arrancar reação o tempo inteiro. Às vezes choque, às vezes riso nervoso, às vezes aquele fascínio curioso de observar algo tão absurdamente exagerado que deixa de parecer violência e passa a funcionar como pura atração magnética. Tem algo muito bonito na maneira como o diretor abraça o grotesco sem vergonha nenhuma. Em vez de esconder os efeitos práticos, ele os exibe quase como troféus para reforçar que aquele universo inteiro opera numa lógica artesanal.
Dentre as incontáveis tentativas de replicar o impacto de John Wick, esse talvez seja um dos únicos que realmente entende o que tornava aquele primeiro filme tão especial e inovador para sua época. Não era apenas sobre coreografias elegantes ou personagens “cool”, mas sobre transformar violência em identidade visual, fazendo cada tiro, caminhada e pausa dramática parecer parte de um tango cuidadosamente construído.
O filme se inspira também no cinema asiático, se parecendo bastante com o mais próximo que o cinema conseguiu chegar de um “Kill Bill moderno” sem soar como uma imitação vulgar de Quentin Tarantino. Porque ele entende algo que Tarantino transformou em assinatura depois de praticamente assaltar o cinema negro: violência é ritmo, pose, música, textura, presença.
É transformar brutalidade em coreografia pop sem perder o peso da carne no processo. A graça aqui é perceber que agora não é mais um americano apaixonado por blaxploitation operando essa máquina estética, mas um russo, como se essa herança audiovisual tivesse atravessado fronteiras para encontrar um novo ladrão disposto a remixá-la, mas desta vez cedendo o centro da imagem a uma mulher negra que domina o filme como musa, força motriz e presença magnética ao mesmo tempo.
Assim como “Kill Bill: Volume 1”, Sokolov admira sua protagonista da mesma forma que Tarantino admirava Uma Thurman caminhando pelos cenários ensanguentados, como figuras maiores que o próprio mundo ao redor. Não existe pressa nas poses, o filme deixa os corpos ocuparem espaço. Deixa o estilo respirar e funciona justamente porque o filme acredita no próprio exagero.
Para quem cresceu apaixonado por aquele cinema onde trilha sonora dita o ritmo dos tiros, onde cenários viram arenas mitológicas e onde personagens entram em cena como rockstars prestes a explodir o ambiente inteiro, “Eles Vão Te Matar” acerta em cheio e faz isso sem plagiar qualquer outra propriedade.
Quando um russo sequestra o cinema de ação americano
O hotel Virgil pulsa como um coração cansado, sufocado por luxo, paranoia e decadência moral, enquanto suas paredes douradas tentam esconder um sistema inteiro construído sobre exploração e violência. E, conforme as irmãs Reeves atravessam aqueles corredores sobrevivendo a um pesadelo cada vez mais surreal, o filme deixa claro que toda aquela estilização exagerada nunca foi vazia, existe para reforçar a sensação de que aquelas personagens estão lutando não apenas para sobreviver fisicamente, mas para ocupar um espaço que aquele mundo jamais quis permitir que elas ocupassem.
“Eles Vão Te Matar” entende algo que muito cinema de ação recente parece ter esquecido: estilo não é superficialidade. Estilo também pode ser discurso. Pode ser revolta. Pode ser identidade. E poucas coisas são tão cinematográficas quanto transformar dor, raiva e resistência em imagens absurdamente belas, grotescas e hipnotizantes ao mesmo tempo.
O filme não quer apenas que o público acompanhe aquela violência, ele quer que cada cena seja sentida como uma explosão estética, como um movimento desesperado coberto de saturação, soul e sangue falso. E talvez seja exatamente por isso que ele funciona tão bem. Porque, por trás de toda a brutalidade cartunesca, dos corpos atravessando paredes e do humor ácido quase debochado, existe um filme genuinamente apaixonado pela ideia de transformar sobrevivência em espetáculo.
“Eles Vão Te Matar”, sob a direção de Kirill Sokolov, transforma até o gesto mais simples de Zazie Beetz em algo que parece carregar a mesma frase:
“Eu existo apesar de tudo. E vou existir alto.”
