Por Marina Brignol
Matéria originalmente publicada em Universidade Federal de Santa Maria
O uso de jogos no ensino de matemática não é novidade na trajetória da professora Elenice de Carvalho Alves. Ao longo de sua atuação na educação básica, essa abordagem sempre esteve presente.
Essa experiência motivou a pesquisa desenvolvida no Programa de Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional (PROFMAT), da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Para a professora Elenice, a proposta parte de uma convicção: “A matemática pode ser ensinada de forma criativa, significativa e conectada com a cultura e com o cotidiano dos estudantes”.
Do Quênia aos povos originários
O caminho até a escolha do tema não foi imediato. Inicialmente, a proposta era trabalhar com o Shisima, um jogo de estratégia originário do Quênia semelhante ao jogo da velha, no qual os dois oponentes tentam alinhar três peças em um tabuleiro octogonal, passando pelo centro.
No entanto, a pesquisa tomou outro rumo a partir de um desafio. “Ao apresentar o jogo ao orientador, ele solicitou que eu encontrasse uma estratégia vencedora. Mesmo depois de muita análise, nada foi encontrado”, relembra.
Então, ocorreu uma guinada na pesquisa. “Percebi que conhecia um jogo com estratégia vencedora, que aprendi com meu avô na infância e que jogava com minha família. A memória afetiva e essa estratégia foram decisivas para a escolha do Jogo da Onça”, conta.
Estratégia, lógica e construção do conhecimento
Idealizado pelos povos indígenas da etnia Bororo, da região do Mato Grosso, o Jogo da Onça é conhecido como “Adugo” e é composto por uma peça que representa a onça e outras 14 que representam cachorros. Cada lado possui um objetivo específico: enquanto a onça precisa capturar cinco peças, os cachorros devem imobilizá-la no tabuleiro, impedindo seus movimentos.
Mais do que um jogo, trata-se de uma prática tradicional utilizada para ensinar estratégias de caça e valores como coletividade e paciência. “É um jogo que também ensina a importância de cuidarmos uns dos outros”, destaca a professora.
Do ponto de vista pedagógico, o potencial é amplo. “O Jogo da Onça apresenta uma riqueza matemática ímpar, com grande potencial lúdico e educativo, estimulando o raciocínio lógico, a resolução de problemas e a construção de estratégias”, explica.
A partir do jogo, foram desenvolvidos problemas matemáticos que exploram conteúdos como análise combinatória, probabilidade, simetria e geometria. Os próprios elementos do tabuleiro e as situações que surgem durante as partidas servem como base para a construção do conhecimento.

Protagonismo e engajamento em sala de aula
A proposta do uso do Jogo da Onça foi aplicada com alunos do Ensino Médio em uma sequência de oficinas. O resultado foi um ambiente de aprendizagem mais dinâmico e participativo. “Foi gratificante perceber o envolvimento dos estudantes. Eles conversavam, pensavam, riam, reclamavam ao perder, trocavam de dupla, desafiavam colegas e pediam ajuda para escolher a melhor jogada”, relata Elenice.
A interação entre os alunos foi um dos pontos mais marcantes. Em alguns momentos, estudantes alertavam colegas sobre jogadas arriscadas e assim demonstravam leitura estratégica e compreensão do jogo. Um episódio específico chamou a atenção da professora: “Uma aluna comentou que o jogo era como uma terapia, porque conseguia esquecer seus problemas pessoais enquanto jogava”.
Outro aspecto relevante foi a mudança na percepção sobre a disciplina. Mesmo resolvendo problemas complexos, muitos estudantes não associavam a atividade à matemática. “Uma aluna disse que estava feliz por não serem ‘problemas de matemática’, pois de matemática ela não gostava”, conta.
Ou seja, o Jogo da Onça tornou-se um recurso didático capaz de minimizar as dificuldades frequentemente enfrentadas pelos alunos na aprendizagem da disciplina. “O aluno se torna mais ativo no processo de aprendizagem, participando, dialogando e construindo soluções coletivamente”, pontua.
Matemática como prática social e cultural
Além dos conteúdos matemáticos, a proposta também incorpora uma dimensão cultural fundamental. O Jogo da Onça foi trabalhado como um conhecimento tradicional indígena, e não apenas como um recurso didático. “A matemática também é uma produção humana ligada a práticas sociais”, sustenta.
A abordagem permite discutir com os estudantes quem são os povos que praticavam o jogo, em quais regiões ele era encontrado e como esse conhecimento foi transmitido ao longo do tempo, por meio da oralidade e da prática comunitária. Nesse sentido, o jogo deixa de ser apenas uma atividade lúdica e passa a ser compreendido como parte de um patrimônio cultural.
“Ao apresentar o jogo como um saber tradicional, rompemos com a ideia de que raciocínio lógico e estratégia são exclusivamente produções europeias ou modernas”, explica.
Valorização da cultura indígena na escola
Elenice reforça que a iniciativa também contribui diretamente para o cumprimento da Lei 11.645/2008, que estabelece a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura dos povos indígenas e afro-brasileiros na educação básica.
Segundo a professora, o trabalho permite ampliar a forma como os estudantes compreendem esses povos. “O jogo possibilita discutir identidade e reconhecer os povos indígenas como produtores de conhecimento, e não apenas associados a modos de vida ligados à natureza, como muitas vezes aparece de forma estereotipada nos materiais escolares”.
Além disso, a iniciativa cria espaço para reflexões sobre respeito e diversidade. “O projeto contribui para uma escola mais inclusiva e comprometida com a valorização das identidades indígenas”, afirma.

Conexões com a UFSM e valorização dos saberes indígenas
A proposta dialoga com iniciativas desenvolvidas na própria UFSM, como os Jogos Universitários Indígenas da Região Sul (Juirs). Realizado no campus, o evento reúne centenas de estudantes indígenas de diferentes universidades e comunidades do Sul do país, promovendo práticas esportivas e tradicionais.
Mais do que uma competição, os Jogos se consolidam como um espaço de afirmação cultural e valorização dos saberes originários na universidade. Modalidades como arco e flecha, corrida com tora e cabo de guerra coexistem com esportes contemporâneos, como futsal, o que evidencia a diversidade de práticas e conhecimentos presentes nas culturas indígenas.
Nesse contexto, o Jogo da Onça se aproxima dessas iniciativas ao também carregar dimensões simbólicas e sociais. Assim como nas práticas apresentadas nos Juirs, o jogo tradicional vai além do entretenimento: envolve estratégia, tomada de decisão, convivência e transmissão de conhecimentos entre gerações.
Ao levar esse jogo para a sala de aula, a proposta desenvolvida por Elenice amplia essa perspectiva para o campo do ensino formal. A iniciativa reforça que saberes indígenas podem, e devem, ocupar diferentes espaços, desde eventos universitários até práticas pedagógicas, contribuindo para uma formação mais plural e conectada à diversidade cultural brasileira.
Resultados, reconhecimento e continuidade
A pesquisa rendeu à professora Elenice o prêmio de melhor dissertação da Região Sul no PROFMAT. Para ela, o reconhecimento reforça a importância de investir em metodologias diferenciadas, que valorizem o uso de jogos e a resolução de problemas.
Mesmo sem continuidade formal como projeto de extensão neste momento, o trabalho segue em prática. A professora continua aplicando o Jogo da Onça com alunos do Ensino Médio na Escola Municipal de Educação Básica Waldemar Borges, em Alegrete, e também em outras instituições.
“Tenho interesse em ampliar a proposta para outras escolas e redes de ensino, fortalecendo o trabalho com a valorização da cultura indígena”, afirma.
A expectativa é que a metodologia possa ser adaptada para diferentes contextos e níveis de ensino, além de inspirar outros professores. “A união entre matemática, ludicidade e cultura pode tornar o ensino mais significativo, dinâmico e conectado com a realidade dos estudantes”, conclui.
