Por Fernanda Merizio
No Giro Cine Ninja na Europa desta semana, seguimos acompanhando os circuitos de circulação do cinema brasileiro na França — entre festivais, políticas curatoriais e espaços de encontro. Neste momento, dois dos principais eventos dedicados ao cinema latino-americano estão com inscrições abertas: o histórico Festival des 3 Continents, em Nantes, e o Festival Biarritz Amérique Latine (FBAL).
O Festival des 3 Continents abriu as inscrições para sua 48ª edição, que acontece de 20 a 28 de novembro de 2026. Voltado a longas-metragens de ficção, documentário, animação e experimental realizados por cineastas da África, América Latina e Ásia, o festival reafirma seu papel como um espaço de descoberta, troca e construção de novas formas cinematográficas. As inscrições seguem até 17 de julho de 2026.
Na edição de 2025, a programação reuniu obras de países como Argentina, Chile, Coreia do Sul, Índia, China, Taiwan, Filipinas, Hong Kong e Sri Lanka, entre outros, reafirmando a vocação transnacional do evento. O cinema brasileiro também esteve presente na competição internacional com Suçuarana, de Clarissa Campolina e Sérgio Borges (Prix du Jury Jeune), e na mostra não competitiva com Iracema: Uma Transa Amazônica, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna.
Já o Festival Biarritz Amérique Latine (FBAL), que chega à sua 35ª edição, também está com inscrições abertas para longas-metragens de ficção até 14 de maio de 2026, integrando uma seleção que contempla ainda documentários e curtas-metragens. A programação recente do festival confirma uma presença marcante do cinema brasileiro em diferentes frentes.
Em 2025, o foco editorial dedicado às migrações dialoga com um conjunto amplo de obras. As sessões não competitivas e de abertura trouxeram títulos como O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, e pré-estreias como O Último Azul, de Gabriel Mascaro, e O Melhor Amigo, de Allan Deberton. Dos curtas exibidos na “soirée palmarès”, destacaram-se A Tragédia da Lobo-guará, de Kimberly Palermo, e Jacaré, de Victor Quintanilha. Já na competição, o Brasil marcou presença com o longa de ficção A Melhor Mãe do Mundo, de Anna Muylaert (Prix coup de coeur), além dos documentários Copan, de Carine Wallauer, e Hora do recreio, de Lúcia Murat, e dos curtas Presépio, de Felipe Bibian (Prix du Regard Queer), e Samba infinito, de Leonardo Martinelli.
É nesse contexto que conversamos com Pierre-Nicolas Chambefort, coordenador de programação do Festival de Biarritz, sobre os bastidores da seleção, os critérios de programação e os desafios da circulação do cinema latino-americano no circuito europeu.
Os debates, os concertos, a proximidade com os convidados dão a Biarritz uma dimensão convivial e coletiva bastante singular. Que importância você atribui a essa dimensão de encontro informal na experiência global do festival?
Pierre-Nicolas Chambefort: O Festival Latino-Americano de Biarritz (FBAL) não é apenas um festival de cinema, é um festival de cultura latino-americana. Então, temos também música, literatura, encontros universitários, teatro. Enfim, ainda que o coração do festival continue sendo o cinema, tentamos sempre variar ao máximo o que propomos ao nosso público, também em termos culturais. Assim, os encontros proporcionam trocas artísticas em um sentido amplo.
Quais são os desafios de um festival de cinema em um contexto em que os festivais se multiplicam, os modos de visibilidade do cinema se transformam e as lógicas de programação redesenham as formas de circulação?
PNC: De fato, houve transformações importantes nos modos de ver cinema. Mas, ao menos na França, a ideia de que as plataformas substituiriam completamente o cinema não se concretizou. Por outro lado, houve uma transformação profunda no consumo audiovisual, com as redes sociais e aplicativos ocupando cada vez mais o tempo de atenção das pessoas. E é justamente nesse contexto que os festivais se tornam ainda mais importantes: para sustentar o cinema latino-americano e o cinema independente!
O FBAL ocupa há várias décadas um lugar importante na circulação do cinema latino-americano na França. Que papel um festival como Biarritz pode desempenhar hoje: transmitir, descobrir, criar vínculos, deslocar olhares, resistir — ou tudo isso ao mesmo tempo? Como você definiria hoje a identidade específica do festival ?
PNC: De fato, quando falamos do festival, estamos falando principalmente de cinema de autor. E o cinema de autor é um cinema muito pouco visto em termos proporcionais, se comparado ao cinema de entretenimento, aos blockbusters, sobretudo os norte-americanos. Nosso papel é justamente oferecer um espaço de expressão para esses cinemas mais confidenciais.
Essa diferença de visibilidade entre cinema de autor e cinema mais comercial é ainda mais acentuada na América Latina. Podemos dizer que há três grandes países produtores: México, Brasil e Argentina — ainda que a Argentina esteja enfrentando enormes dificuldades atualmente por conta do Milei.
Mas o grande problema nesses países não é tanto a produção, e sim a distribuição e a exibição. Não há sistemas sólidos de distribuição, e tampouco circuitos fortes de salas de cinema como existe na França. Então, mesmo quando os filmes existem, eles não são vistos. Não porque o público seja culpado, mas por uma série de fatores que tornam o acesso mais difícil. Isso faz com que, em praticamente todos os países latino-americanos, o cinema nacional seja pouco visto. E nos países com menor produção, esse fenômeno é ainda mais forte. Diante disso, o papel de Biarritz é oferecer uma plataforma de difusão, um espaço de visibilidade para esses filmes. É um cinema que nos interessa profundamente. Queremos mostrar aquilo que normalmente não é visto e dar espaço a cinematografias menos acessíveis.
Em Biarritz, todos os filmes em competição são exibidos pelo menos duas vezes em uma grande sala. Os longas de ficção, por exemplo, passam em uma sala de 1.200 lugares. Em termos franceses, isso pode parecer pouco, mas, considerando a realidade da exibição na América Latina, 2.000 espectadores já é enorme — pode representar 30% ou 40% do público total do filme. Então, estamos ali para valorizar esses filmes, para criar um vínculo entre o cinema e o público.

Um festival trabalha entre várias dinâmicas: revelar novos nomes, acompanhar cineastas emergentes — abrindo espaço para formas que não se deixam traduzir imediatamente, mas também acolher obras já consagradas. Como Biarritz pensa esse equilíbrio?
PNC: Nossa linha editorial precisa dialogar com o público e com as ambições do festival. E quanto mais linhas editoriais diferentes existirem no mundo dos festivais, melhor — porque isso significa que mais filmes podem ser exibidos.
Filmes como O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, ou O último azul, de Gabriel Mascaro, já passaram por grandes festivais antes de chegar a Biarritz — Cannes e Berlim. Por isso, não os colocamos em competição, mas em sessões de vitrine. Já na competição, tentamos priorizar filmes que não têm distribuição na França e talvez nem cheguem a ter lançamento em sala. É esse cinema que queremos apoiar mais diretamente. No caso dos curtas-metragens, é onde exploramos mais as novas formas. Aí entramos rapidamente no experimental, que envolve outro nível de complexidade em termos de produção e circulação.
Que lugar ocupam programadores, críticos ou festivais parceiros latino-americanos na construção da linha editorial do FBAL?
PNC: Sim, existe um diálogo forte. Todos os nossos comitês de seleção têm pelo menos um membro latino-americano. Jean-Christophe Berjon — diretor artístico do festival — é francês, mas vive no México há cerca de 15 anos. Nos comitês, há sempre essa presença: no de ficção, contamos com Valentina Otormin D’all’oglio, uruguaia e Andrea Stavenhagen, mexicana; no documentário, contamos com Paloma de la Garza, mexicana e María Carolina Agüero, venezuelana; no curta, contamos com Regina Campos, peruana.
Também mantemos diálogos com festivais latino-americanos — como BogoShorts e Ventana Sur — para trocar ideias e pensar juntos. Além disso, fazemos um trabalho constante de acompanhamento: vemos o que está sendo exibido em festivais como BAFICI, Festival do Rio, FESAALP, FICValdivia, FICCI, SANFIC. Esse monitoramento é essencial para a seleção. Como somos um festival dedicado a uma região específica, não podemos estar desconectados do que acontece nela pois queremos criar uma experiência que seja significativa para quem participa. Seria impossível fazer bem o nosso trabalho sem esse vínculo.
Existem dois grandes tipos de festival: os voltados ao mercado profissional e os voltados ao público. Somos um festival voltado ao público, com uma audiência fiel e crescente, incluindo também um público escolar importante. Isso implica adaptar a nossa linha editorial: não podemos nos afastar completamente do que o público espera. Isso não significa propor um cinema pouco interessante. Talvez privilegiamos formas mais clássicas, mas buscamos sempre uma programação rica, diversa e consistente do ponto de vista estético.
