Contar histórias nunca dependeu de uma única tela. Do rádio à televisão, do cinema às plataformas digitais, o audiovisual se transforma à medida que novas tecnologias alteram a maneira como as pessoas produzem, compartilham e consomem narrativas. É nesse cenário que “88 Constelações”, apresentada como a primeira novela vertical musical brasileira, conquista seis indicações ao Rio Web Fest e chama atenção para as possibilidades de uma dramaturgia concebida para o ambiente digital.
A produção combina interpretação, conflitos narrativos e música original em episódios pensados para o formato vertical, associado ao consumo de conteúdo por celulares. O reconhecimento no festival coloca em evidência diferentes dimensões do projeto, da direção ao figurino, passando pelo trabalho do elenco e pela construção de uma identidade audiovisual própria.
Mais do que adaptar uma linguagem tradicional a uma tela menor, a proposta acompanha uma transformação importante: o formato digital também pode servir de espaço para experiências de ficção que buscam desenvolver personagens, construir vínculos com o público e explorar novas formas de expressão artística.
SEIS INDICAÇÕES RECONHECEM DIFERENTES ASPECTOS DA PRODUÇÃO
“88 Constelações” concorre nas categorias de Melhor Websérie Brasileira, Melhor Websérie Vertical, Melhor Direção de Série Vertical, Melhor Elenco de Série Vertical e Melhor Figurino. A atriz Clara Galinari também recebeu indicação a Melhor Atriz de Série Vertical.
As nomeações abrangem áreas distintas da realização audiovisual. Enquanto as categorias de direção e figurino reconhecem aspectos da concepção artística, as indicações de websérie e elenco colocam em evidência o trabalho coletivo necessário para construir uma narrativa seriada.
A indicação individual de Clara Galinari acrescenta uma dimensão particular ao reconhecimento da produção, destacando a atuação como parte fundamental da experiência narrativa.
As seis indicações representam uma oportunidade de ampliar a visibilidade do projeto em um segmento que procura consolidar espaço no mercado audiovisual brasileiro. O resultado da premiação, entretanto, depende da etapa final do festival e não deve ser confundido com a conquista antecipada dos prêmios.
UM ELENCO ENTRE DIFERENTES EXPERIÊNCIAS ARTÍSTICAS
A novela reúne Gianlucca Mauad, Ninah Sampaio, Henry Cechini, Miguel Schmid, Clara Galinari, Sofia Cordeiro, Caio Paduan, João Côrtes e Tania Lizardo.
O trabalho do elenco integra uma proposta que procura aproximar dramaturgia e música, utilizando personagens e situações ficcionais para construir uma experiência narrativa adaptada ao consumo digital.
A produção é realizada pelas produtoras BD8 Music e Savanaah Arts, tem criação e roteiro assinados por Mika Guluzian e direção-geral de Pedro Rodriguez.
Outro elemento central é a trilha sonora original, composta por 12 faixas produzidas por Bruno Didio. Nesse formato, a música não aparece apenas como acompanhamento: integra a identidade artística do projeto e participa da maneira como a história é apresentada ao público.
A articulação entre roteiro, interpretação, direção e composição musical coloca a produção diante de um desafio particular: preservar a continuidade dramática e a força das canções em uma linguagem audiovisual que precisa dialogar com os hábitos de consumo das plataformas digitais.
O FORMATO VERTICAL MUDA A MANEIRA DE CONTAR HISTÓRIAS
A popularização dos celulares como dispositivos de acesso ao entretenimento abriu espaço para formatos audiovisuais que não seguem necessariamente os padrões tradicionais da televisão e do cinema.
Na narrativa vertical, o enquadramento é pensado para uma tela em posição retrato. Essa escolha interfere na composição visual, na movimentação dos personagens, na proximidade dos rostos e na forma como cada cena é construída.
A mudança não se limita à proporção da imagem. Ela exige decisões de linguagem, ritmo e encenação que considerem a experiência de quem acompanha a história em uma tela pequena, muitas vezes durante deslocamentos ou em intervalos da rotina.
É nesse contexto que “88 Constelações” propõe unir o formato vertical à estrutura de uma novela musical. A iniciativa explora um espaço de experimentação para roteiristas, intérpretes, diretores, compositores e produtoras interessados em desenvolver obras concebidas desde o início para a distribuição digital.
Isso não significa que os formatos tradicionais estejam perdendo sua relevância, mas que o audiovisual passou a conviver com diferentes possibilidades de produção e circulação. A diversidade de linguagens amplia o campo de atuação de profissionais e permite que novas propostas encontrem públicos por caminhos distintos.
PRODUÇÃO INDEPENDENTE E VISIBILIDADE NO AUDIOVISUAL
O reconhecimento em festivais dedicados à internet também ajuda a colocar em discussão o espaço das produções desenvolvidas para além dos modelos convencionais de distribuição.
Projetos digitais podem experimentar linguagens, estabelecer novas relações com o público e desenvolver estratégias próprias de circulação. Ao mesmo tempo, enfrentam desafios relacionados a financiamento, divulgação, alcance, remuneração dos profissionais e continuidade das obras.
Por isso, a visibilidade conquistada por “88 Constelações” interessa não apenas à equipe diretamente envolvida, mas também ao debate sobre as condições de produção e reconhecimento do audiovisual brasileiro.
As indicações ao Rio Web Fest destacam uma iniciativa que combina diferentes áreas artísticas e investe em um formato específico de narrativa. A consolidação desse mercado, porém, depende de oportunidades contínuas de produção, acesso a recursos e valorização do trabalho de quem cria e realiza essas obras.
QUANDO A INOVAÇÃO TAMBÉM É UMA ESCOLHA ARTÍSTICA
O percurso de “88 Constelações” evidencia uma questão que atravessa o audiovisual contemporâneo: inovar não é apenas acompanhar uma tendência tecnológica, mas compreender como uma nova linguagem pode contribuir para a história que se pretende contar.
Ao reunir dramaturgia, trilha sonora original e enquadramento vertical, a produção aposta na combinação entre forma e conteúdo. As seis indicações ao Rio Web Fest colocam essa experiência em evidência e ampliam a atenção sobre um segmento que busca estabelecer sua identidade no cenário nacional.
O futuro da dramaturgia não precisa escolher entre a tela do cinema, a televisão ou o celular. Pode encontrar caminhos em todas elas, desde que existam histórias capazes de mobilizar o público e profissionais com condições de transformar ideias em obras.
Com “88 Constelações”, a discussão sobre o audiovisual brasileiro ganha mais um exemplo de experimentação artística: uma novela musical que procura encontrar, em uma tela vertical, novas possibilidades para contar histórias.
